22 de jun de 2014

DE AMORES E PAIXÕES

Fiz este ano 55 de idade – claro que não vou falar “puxa, como o tempo passa rápido” ou coisa semelhante, digo apenas que me sinto bem, em paz e com uma rica história de vida.
O que quero mesmo é falar de paixões e amores, platônicos e eróticos, vividos e não vividos, e que mexeram com todo o meu sensorial físico e imaginário. E, o mais importante, um critério alheio à minha vontade que não se guia pela idade do corpo de quem me apaixono ou amo.
Olhando para trás, tive desejos por mulheres até 20 anos mais velhas ou mais jovens – ou seja, quarenta anos de uma ponta à outra, com o mesmo ardor. Hoje, essa faixa é menor por óbvio. Só não por lógica moral institucional. Já não me atraem mulheres com idade mental abaixo dos 25 anos. Tenho ganâncias de ouvir e vivenciar idéias e comportamentos inteligentes, sensatos e, por outro lado, repulsa por pessoas mal resolvidas e barraqueiras. Periguetes? Sinto muito, não rola...
Sou caretão, confesso – sexo no primeiro encontro, não. Nem no segundo, se não rolar uma química que meu sensório sabe muito bem o que é. Não que eu seja exigente (não tenho balas para isso), apenas o não criterioso sentimento é quem decide. Deixo-me levar pelo raciocínio intuitivo; o lógico deixo para os matemáticos e físicos.
Todos os meus amores e paixões passaram por aí, sem meios termos. Foram todos muito bons, me fizeram crescer e viver momentos inesquecíveis. Até os não correspondidos foram deliciosos, embora com a sua dose, compreensível, de decepção. Estes últimos, platônicos, foram devidamente sublimados – no sentido de expurgar-se -, à base de muito carpaccio.
No âmbito da paixão erótica, particularmente, é bem mais fácil de ser resolvido uma vez que arrefece com rapidez, é o tipo de paixão efêmera. Essa só dá prazer, não deixa sofrimentos.
Contudo, o melhor mesmo são os amores de toda uma vida. Eles perpassam por todas as fases, da paixão e do amor erótico, ao amor que, mesmo não mais existindo fisicamente, subsiste na alegria de uma boa companhia e de se saber que o outro vai bem com sua vida. O que não muda, jamais, é o brilho no olhar, num encontro cotidiano ou em um casual, depois de anos, onde o que ocorre pode ser um simples, “oi, tudo bem? Saudades...”. E nos sentimos em paz com esse amor perene, feliz pela sorte de tê-lo vivido.
Indisfarçável é o brilho nos olhos que dizem muito mais do que se pode descrever.

20 de mar de 2013

FADÁRIO


Nunca desperdice
um céu repleto de estrelas
Nunca aniquile
o brilho dos olhos da mulher
Escute o que dizem
as noites da sua vastidão

Estrelas ascendentes
Seja, mas nunca, não
De feminino brilho
Ame, mas nunca, não

Ouse conquistar
Somente o amor estelar
Sempre seja
ao feminino o que reluz
Escute o que diz
o coração e seus quereres

Dizem os fadários
A alegria é uma menina
Que faz um brinde
com pingentes de estrelas
É a suavidade
do canto de uma mulher


19 de mar de 2013

Encerrando ciclos


"Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final. Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver. Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos. Não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos que já se acabaram.... Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira." - Fernando Pessoa

UM BOM HOMEM


Sempre achei o Zildo um cara idiota. Tem a namorada mais bonita da cidade e parece não se contentar; vive na praça da igreja, sentado no banco do coreto, para ver as garotas passarem, após a missa. Cada uma que passa é um assobio. Acho isso um desrespeito com a Juliana. E, pior, vive falando das qualidades da namorada, para os outros homens, no bar, jogando sinuca. Quem faz propaganda, meu velho, tá querendo vender. Um idiota e cretino, o Zildo.
A Juliana, coitada, morrendo de amor, suspirando pelo namorado. Mal sabe ela que namora um imbecil, que não lhe dá o devido valor. Só que nunca lhe disse nada, pois ela além de não acreditar é bem capaz de brigar comigo. Eu jamais magoaria a minha prima, moça bonita, estudada e excelente professora. Mas, que eu me coço de vontade de contar, coço; isso é verdade.
E tem mais. O Zildo é baixinho, quase careca e com um sorriso torto, por causa de um dente de ouro no canino que faz questão de exibir. Em resumo, o sujeito é feio e metido a besta. Como é que a gente pode entender o coração das mulheres? Juliana, todo ano, é eleita a princesa da festa da melancia. Bonita igual a ela não existe. Morena, esbelta, cabelos negros como asa de urubu, desce até o meio das costas. E o sorriso? Lindo, tão lindo que quando dá risadas o peito da gente chega a doer de emoção.
Tia Laura tem lá as suas desconfianças com o Zildo, não é boba, contudo, faz de conta que não vê nada. Só pode ser por causa do dinheiro do merdinha. Fica calada, com os olhos atravessados no sujeito quando ele visita a Juliana. E ele, lá, com aquele papo mole, prometendo casamento no máximo em dois anos, assim que o avô entregar a herança deixada pelo pai. É só completar vinte e um anos, diz. E a pobre da Ju fica radiante, toda feliz. Inclusive já comprou todo o enxoval.
Um dia a coisa ficou russa para ele. Cheguei à casa da tia Laura e fui entrando, já que sou da família. E aí vejo o Zildo, de costas e cara grudada na porta do banheiro, com a mão lá embaixo, nas coisas dele. O feladaputa tava espiando a Juliana tomar banho! Fiquei amarelo de fúria e lasquei um tapa bem colocado no pé do seu ouvido. O cara voou uns dois metros antes de cair estatelado no piso, procurando o cavalo que lhe dera o coice. Pensei em bater mais, porém ele levantou e saiu correndo, o covarde punheteiro safado!
Tia Laura não estava em casa. Para acalmar meu estado de nervos, fui dar uma espiadinha na fresta da porta de madeira. Era demais! Era a criatura mais maravilhosa deste mundo de meu Deus! Lembrei da Roseana, aquele arremedo de mulher, com sua pança imensa e sem bunda, peitos caídos – maldisse a minha falta de sorte. Como é, me perguntava sempre, como é que fui casar com uma mulher daquela? Afastei a peste do meu pensamento e fiquei contemplando minha deusa, com graciosos gestos, ensaboar aquele corpo divino.
Prometi a mim mesmo e a Deus, naquela hora: com aquele imbecil do Zildo ela não se casava. Ela merecia homem melhor, digno, respeitador. Se o Zildo esperava a herança do pai para casar com a Juliana, eu esperava que Roseana se enfastiasse de levar sopapo e pedisse o divórcio. E não sou do tipo que perde as esperanças. E, se eu faço isso, é por amor a minha prima Juliana. Ela merece o melhor!  

21 de mai de 2012

Do indesejado


Há uma nódoa de angústia nestes tempos;
Fantasmas arrastam correntes,
Sorrateiros,
Sobre o coração
Que, pálido, pulsa aos pulos;
Uma repulsa corrói o cerne do razoável.


Não há alegrias
Se tão poucos são os motivos
Do barco que navega por águas ensandecidas,


E se ao horizonte,
O olhar perdido não se acha,
A cabeça pesada cai
Sob o peso de uma aura acinzentada
Que a face inexpressiva,
Como nunca fora,
Não revela.


Há uma combustão sangrenta e silenciosa,
Destes tempos
Que só os sentidos vêm.


Em meio ao redemoinho
Brota uma sutil e obstinada confiança
De se encontrar,
Ainda que leve mil anos,
A alquimia destes tempos de agora.


E o apego do peito
Aos mantras da esperança,
Entoado com os tambores da alma
Findará esse levante,
Desfazendo toda nódoa
E, exorcizados,
Repatriem-se os assombros
A insignificância
Dos vencidos
Que a luz matinal descortina.


[Osair Manassan]

19 de mai de 2012

PALAVRAS VADIAS


Subverto-me,

um tanto verdade,

outro tanto farsa;

tese e antítese

sem pretensões à síntese.

Escravo do silêncio

preso às palavras

que ao final libertam-me

num avesso de mim.


(Poema que deu origem ao nome do blog)
Osair Manassan

4 de mai de 2012

Desejos


Não quero que me ache um “bom rapaz”. Tenho uma necessidade premente de cometer pecados, subverter: isto excita, produz adrenalina - dá uma gostosa sensação de estar vivendo plenamente. Eu quero mesmo é amá-la sem nenhum juízo.

[osair manassan]

Ah, os intelectuais!


Os nossos “preciosos” intelectuais torcem o nariz para o brega, o não-acadêmico. Mas, somente quando estão sóbrios. Tenho observado, na minha condição de boêmio abstêmio que, à medida que cresce o teor alcoólico no sangue, eles vão revelando o brega que existe em todos eles. No auge da madrugada e da cachaça, abraçam com a gente e cantam emocionados, de olhos fechados e braços abertos, músicas que vão de Wando a Bruno e Marroni. E ainda pedem a saideira.
É isso: em todo intelectual existe um brega enrustido.

[osair manassan]

23 de abr de 2012


NA COMISSÃO DA VERDADE

... "Como sobreviveu a tudo isso?"
"Ainda estou sobrevivendo... Sobrevivendo à maior de todas as aflições, que é a dor moral. É a humilhação de ter o seu eu exposto à violência gratuita, sua intimidade devassada, seu corpo exposto e explorado em todas as suas reentrâncias com uma fúria bestial."
"Que animal faz esse tipo de coisa?"
"Nenhum, que não seja humano. Os animais se respeitam, não torturam, matam por necessidade vital, matam dignamente. Os animais não torturam nem se ejaculam diante do sofrimento do outro. O homem não merece ficar na categoria dos animais: é um desrespeito ao instinto primário..."
"E como foi?"
"As dores que sofri entre gritos desesperados, aquela sensação cruel da eletricidade sacudindo o corpo molhado e despido, e tantos outros requintados métodos de martírio físico já passaram e deles só restam algumas cicatrizes. Mas a dor moral, não. Essa se aloja na alma da gente, gruda no existir e nos assombra para o resto da vida. Vira pesadelo recorrente, num eterno retorno, num eterno ferir e machucar, que desespera e entristece os restos dos nossos dias".
"Os algozes sentem-se orgulhosos dos seus feitos covardes, não conhecem o constrangimento. Arrotam vitória, sem ter a noção de que não há vitória no subjugo pela força, na incapacidade do outro se defender com dignidade e igualdade de condição".
"E o que mais?"
"Sentiam-se reis, mas eram reis sem coroa, sem glórias reais. Perdidos, agora, sem reinado, vestindo as máscaras da desonra, vagueiam sem conhecer o amor, sem a alegria dos que combateram o bom combate. Sem a grandeza dos que ousaram sonhar e foram em busca do sonho, que se somaram entre outros de igual gentileza, num sonho coletivo".
"O que são, hoje, esses algozes dos solidários?"
"Não nego a minha repulsa: são seres desprezíveis, vermes que rastejam na lama ensanguentada de seus atos execráveis, abjetos. São velhos arrogantes que, ainda hoje, cospem na verdade da história..."

Osair Manassan

21 de abr de 2012

Tecelãs


Na agulha que fere
A linha tecida 
Tece 
Tramas de amores inacessíveis
Rompendo caminhos
Que levam ao coração.


Somos o pano adornado
Perfurado
Para a metamorfose da cores
Em finos fios 
Do que fora macio algodão.


Reféns de belas tecelãs
A girar
Em gozos trançados
Num corpo em roto tecido
De linhas fiadas 
Corpo vassalo, confiado 
À roca incessante 
Da vida 
Que roda e destrança
O linho do amor 
Na linha do suportável. 




Osair de Sousa